Pesquisar este blog

Carregando...

terça-feira, 29 de maio de 2012

Quem vencer o inimigo interno não deve temer o inimigo externo



Aqueles que adoram òrìsá estão empenhados em encontrar uma maior consciência de si e do mundo.  Ifá ensina que este caminho tem suas raízes no processo de superação do medo.  Há aqueles que vivem com medo e perpetuam este medo em vez de encontrar o seu destino. Ifá como a maioria das tradições espirituais, ensina que o medo é superado pela coragem.  Não há maneira fácil de acessar a coragem e a cada confronto com o medo envolve uma ação, apesar do medo. Ifá reconhece que uma das maneiras mais fáceis de evitar o medo é sufocá-lo.
Por exemplo, se alguém está com medo de falhar, enquanto procura um emprego, argumentando que o medo pode negar que não há empregos disponíveis.  Os psicólogos chamam esse processo de "deriva".
Um elemento-chave na vida em harmonia com o òrìsá é a capacidade de identificar, apoiar e transformar esses medos internos que impedem a ação.
Este provérbio é muito claro em afirmar que uma vez que os medos interiores forem superados. os medos que ocorrem no mundo exterior tornam-se insignificantes. Um dos rituais usados ​​para desafiar o medo é a invocação de Ogum. A invocação é seguida por um pedido a Ogum para que os obstáculos que estão no caminho sejam removidos para o fortalecimento do destino pessoal.  Quanto mais eu sabia que Ogum era reverenciado na África por este motivo, mais claro também ficava para as pessoas que atendiam a este chamamento a Ogum, a surpresa ficava em descobrir que os obstáculos são internos e não externos.
Em termos literais a obstrução é imaginária e não real. De acordo com as escrituras de Ifá, os obstáculos criados são chamados de “demônios” imaginário ou em nossa cultura chamamos de Elenini. Os demônios imaginários são difíceis de dissipar, porque eles permanecem ilusórios, sempre mudando de forma, pouco antes de uma real transformação ocorrer. Eu acho que muitas pessoas que disseram que queriam ter sucesso em suas carreiras, mas nunca fizeram progressos concretos, freqüentemente tinham muitas desculpas para esta situação, normalmente focavam em exemplos reais de tratamento injusto.
Quando a divinação indica que a questão principal é o medo do sucesso, a mensagem pode ser muito difícil de ser  aceita. Na minha experiência, aqueles que não aceitam que o seu problema é o medo, geralmente são aqueles que não progridem.

Por Awo Fatumnbi

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Alágbá - O conceito Ifá de se tornar um ancião


Uma homenagem a este grande homem Baba Olatunji.

Por: Awo Fatunmbi.

O papel dos anciãos é extremamente importante dentro da estrutura global da cultura iorubá. Eles são os mais antigos membros da comunidade iorubá tradicional que servem como um elo entre as crianças amadurecerem e os Mistérios do Espírito.  O procedimento para se tornar um, é uma cerimônia muito elaborada e envolve uma ampla gama de funções nas diferentes comunidades de Ifá / òrìsá.  Em nossa língua estas funções geralmente recaem sob o título de "Chefe".  Para homens e mulheres, a transição do adulto na maioria das vezes envolve uma mudança na responsabilidade comum.
Em comunidades tradicionais iorubás homens adultos têm a responsabilidade de proteger e defender a família no sentido amplo. Esta responsabilidade inclui o fornecimento de alimento e abrigo durante o desenvolvimento das habilidades em artes, lutas e etc.
Em geral, a responsabilidade das mulheres adultas (a mente da economia familiar, no sentido amplo.) inclui a tarefa de processar os alimentos cultivados na fazenda e vender os bens produzidos pela família no mercado.
Quando um homem fica mais velho e começa a experimentar a perda da força física, assume o papel de Babágbà.
Babágbà significa "pai mais velho ou idoso", mas envolve também a conotação cultural de "pai provedor". Babágbà é o elo entre o jovem da família no sentido nato e os profundos mistérios do òrìsá.
Quando uma mulher fica mais velha e começa a experimentar uma diminuição na sua responsabilidade em criar os filhos, assume o papel de Iyáàgbà. Iyáàgbà significa "mãe mais velha", mas envolve também a conotação cultural da "mãe guerreira". Iyáàgbà é quem preserva os segredos da autodefesa psíquica e tem um papel fundamental na proteção espiritual da família, tanto no sentido amplo da comunidade como um todo. Isso é muitas vezes feito através da sociedade secreta das mulheres chamadas Ìyáàmi.
A palavra Ìyáàmi é normalmente traduzida como "as bruxas" e é muitas vezes uma associação negativa.  A tradução literal da palavra é Ìyáàmi é: "Nossa Mãe". É uma referência para a sociedade das mulheres mais velhas.
Esta sociedade é de fundamental importância para o culto de Ifá. Sem rituais Ìyáàmi, a completa expressão de Ifá não é possível. Entre outras coisas Ìyáàmi ajuda a manter o equilíbrio do poder espiritual e político entre homens e mulheres. O papel das Ìyáàmi em grande parte se perdeu nas comunidades de Ifá / òrìsà da diáspora. Está se fazendo um esforço sério no Ocidente para trazer esse elemento essencial do culto de Ifá da África.
É comum em formas ocidentais de culto ao órìsà assumir que Ifá é uma religião patriarcal que recai exclusivamente sobre o poder e a influência dos homens. Esta não é a minha experiência em Ifá, nem tampouco a praticada na África. Todos os aspectos do cerimonial de Ifá representam a composição das forças da natureza de ambos os sexos, bem como a participação de membros do sexo feminino e masculino do sacerdócio. A confusão nesta área pode ser baseada no fato de que o papel das mulheres no ritual machista é geralmente escondido e secreto, bem como o papel masculino nos rituais das mulheres.  Os detalhes dessa interação são um tabu para os nãos iniciados, mas minha esperança é que essas integrações das forças espirituais no Ocidente continuem a evoluir, enquanto os elementos que estão em falta e são da nossa tradição sejam restaurados neste continente.

O Julgamento de Obatálá

Ao contrário das festas, apenas os òrìsás estavam presentes no conselho. Nàná mesmo distante e envergonhada por sua forma esteve presente. Ela recusava-se a chegar perto dos pandegos e, se pudesse opinar, certamente condenaria Esù, além de odiar qualquer ser masculino, adorava Osun, a única que foi visitá-la e presenteá-la após ter sido banida do reino por Obatala.
Osonyin, embora não era visto por ninguém, fazia-se presente, de quando em quando assoviava e ria. Muitas versões corriam entre todos, muitas delas já haviam sofrido os efeitos da boca-a-boca transformando-se nas mais absurdas histórias.
Sàngo prostrou-se ao lado de Óosáàlá, enquanto Esù e Osun ficaram em pé frente a frente no centro do conselho. Os olhos de fogo soltavam chispas, enquanto os olhos d’água dela lacrimejavam.
- Com o poder me concedido por Olorum, o criador, convoquei a todos, para presenciarem este julgamento. Espero que todos tomem por conhecimento o que virem e ouvirem hoje! Falou Óosáàlá com eloqüência. Sob os olhos dele, Sàngo conduziu o julgamento. Pediu a Esù e Osun que contassem suas versões. Depois chamou Ifá para esclarecer sobre os búzios.
Com o coração partido, já que tinha que desmentir a versão de sua sobrinha e filha de criação, contou a todos como e porque deu o jogo ao pandego. À medida que Ifá relatava, Esù enchia-se de razão e Osun ia curvando-se sobre si.
- Ifá! Disse Óosáàlá, acredito que não agiu certo dando tão poderoso jogo a um só òrìsá!
- Sim, Óosáàlá! Eu concordo. Para corrigir isto - disse Ifá, pegando os búzios e jogando-os para o céu - determino que a partir de agora cada búzio representará um òrìsá no jogo. E como a princípio eu o dei a Esù, todos que forem consultar este jogo deverão pedir permissão a ele.
Para esclarecer sobre a esfera, Oduduwa fez-se presente.
- Venho falar em verdade, pois presenciei o fato. Esù, preso em sua ambição, retirou esta bola brilhante de uma aldeia, que ruiu pela falta de tal artefato e, mesmo tendo sido alertado do que poderia acontecer, nem sequer se abalou.
Após o relato da ‘mãe natureza’ houve um burburinho entre os presentes, Esù abaixou a cabeça e cerrou os punhos. Sàngo sentou-se e Óosáàlá levantou-se dizendo:
- Visto os fatos, concluo que: tanto um quanto outro errou: por um lado Osun roubou artefatos que pertenciam a outro òrìsá, por outro lado, Esù mentiu, dizendo ter tirado um pedaço de Oorum, mas de fato dizimou uma aldeia. Diante dos fatos eu decido que a esfera dourada não ficará com nenhum dos dois, mas pertencerá a ambos: o metal ficará incrustado nas rochas, aprisionando a ganância de Esù, mas para ser tirado, precisará ser garimpado nas águas, para lavar a inveja de Osun.
Enquanto a Iyàgbá chorava, Esù falou irado.
- Acato o veredicto - virando-se para Osun, praguejou - já que fui enganado e julgado por conta deste metal, todo aquele que tiver contato com ele, assim como você, mostrará seus demônios, sendo tomado pela nossa ambição presa nele.
Ao sair do conselho, Esù irado jurou para si que sempre perseguiria tanto Osun quanto qualquer um que vivesse sob sua proteção (daí nasceram os epurins, filhos (as) de Osun perseguidos por Esù), e, como vingança, inseriu sementes negras nos frutos prediletos dela, os mamões, para que, quando ela fosse comer, sentisse sua presença e se lembrasse do mal que lhe fez.
 FIM